Os fluxos de fundos negociados em bolsa (ETFs) de Bitcoin (BTC) registraram saldo positivo nos últimos 30 dias, enquanto a demanda por ETFs de ouro apresenta sinais de desaceleração após nove meses consecutivos de entrada de recursos. Essa mudança ocorre mesmo com o preço do ouro ainda em patamares elevados e o sentimento em relação ao Bitcoin mostrando sinais de esfriamento.
Mudança nos fluxos de ETFs
De acordo com o boletim Kobeissi Letter, o maior ETF de ouro dos Estados Unidos, o GLD, registrou na última quarta-feira uma saída de US$ 3 bilhões, o maior resgate diário em mais de dois anos. A retirada ocorreu após uma queda de 4,4% no preço do ouro, a mais acentuada desde a venda em 30 de janeiro.
Os ETFs de ouro haviam atraído US$ 18,7 bilhões em janeiro e mais US$ 5,3 bilhões em fevereiro, configurando o melhor início de ano em dois meses da história e estendendo uma sequência de nove meses de entradas líquidas. O recente resgate indica que investidores estão realizando lucros após a forte valorização do metal em 2025.
Em contraste, os fluxos de ETFs de Bitcoin se moveram na direção oposta no último mês. O saldo líquido dos últimos 30 dias mudou para uma entrada de US$ 273 milhões em 6 de março, ante uma saída de US$ 1,9 bilhão em 6 de fevereiro.
Os dados em unidades nativas reforçam essa divergência. Os saldos dos ETFs de Bitcoin apresentaram aumento líquido de 4.021 BTC em 6 de março, contra uma redução de 42.275 BTC em 6 de fevereiro. Já as reservas dos ETFs de ouro caíram de 1,4 milhão para 621,100 onças no mesmo período.
As unidades nativas representam a quantidade real do ativo subjacente detida pelos fundos, eliminando distorções causadas pelas variações de preço e evidenciando a acumulação ou distribuição efetiva.
Joe Consorti, chefe de crescimento da Horizon, resumiu a tendência atual afirmando que o ouro está estagnado enquanto o Bitcoin avança. Ele destacou que o BTC deve superar o crescimento percentual do ouro no último mês, impulsionado pela aceleração da Economia dos EUA e pela melhoria do sentimento de risco. Consorti sugere que uma rotação do perfil de investimento de aversão a risco para maior disposição a risco pode estar em curso.
Ciclos históricos entre ouro e Bitcoin
Em relatório divulgado no final de dezembro de 2025, o analista da Fidelity Digital Assets, Chris Kuiper, destacou que o retorno de 65% do ouro em 2025 foi o quarto maior ganho anual desde o fim do padrão-ouro. Segundo Kuiper, o ouro pode estar próximo do estágio final de seu ciclo de liderança em relação ao Bitcoin. Historicamente, os dois ativos se alternam na preferência dos investidores, e, após o desempenho robusto do ouro em 2025, não seria surpreendente que o Bitcoin assuma a dianteira em breve.
No entanto, essa rotação pode demandar tempo para se consolidar no mercado. Após o fundo do Bitcoin em 2022, foram necessárias cerca de 147 dias para que o ativo estabelecesse uma tendência sustentável de desempenho superior ao ouro, período em que a relação entre os dois passou por fase de consolidação antes de iniciar uma trajetória de alta.
Atualmente, o índice que mede a relação entre Bitcoin e ouro opera próximo à mesma zona de consolidação observada nas fases iniciais da rotação entre 2022 e 2023.
Kuiper também ressalta que ambos os ativos podem se beneficiar dos persistentes déficits fiscais, tensões comerciais e incertezas geopolíticas, que levam investidores a buscar reservas de valor alternativas fora dos sistemas monetários tradicionais.
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã tem reforçado a demanda por ativos considerados refúgios seguros, como o ouro, que costuma se valorizar em períodos de instabilidade geopolítica.
Por outro lado, a estrategista macroeconômica Lyn Alden projeta que o Bitcoin deve superar o ouro nos próximos dois a três anos, seguindo a recente valorização do metal precioso nos últimos meses.
Esses movimentos indicam um possível reposicionamento dos investidores entre os dois ativos, refletindo mudanças no cenário econômico e geopolítico global.

