O governo federal deu um passo decisivo rumo ao uso institucional da tecnologia blockchain ao formalizar a contratação de uma solução avançada de análise e rastreamento de transações com criptomoedas, que passará a ser utilizada de forma operacional a partir de 2026. O investimento, que ultrapassa R$ 1,7 milhão, marca uma nova fase da atuação do Estado brasileiro na investigação de crimes financeiros envolvendo ativos digitais.
O contrato foi firmado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e tem como foco ampliar a capacidade investigativa de órgãos como a Polícia Federal, especialmente em casos que envolvem lavagem de dinheiro, fraudes digitais, crimes cibernéticos e uso de criptoativos para ocultação patrimonial.
📑 O que exatamente o governo contratou?
De acordo com documentos oficiais publicados no Diário Oficial da União, o acordo prevê a aquisição de dez licenças de softwares especializados em blockchain analytics — ferramentas que permitem analisar, correlacionar e visualizar transações realizadas em redes públicas como:
- Bitcoin (BTC)
- Ethereum (ETH)
- Tron (TRX)
- XRP Ledger
- Dash e outras blockchains amplamente utilizadas no Brasil

O valor total do contrato é de aproximadamente R$ 1,7 milhão, o que representa um custo médio de R$ 170 mil por licença, incluindo:
- Acesso à plataforma de rastreamento
- Atualizações tecnológicas
- Suporte técnico especializado
- Treinamento prático para agentes públicos
A vigência formal do contrato é de 12 meses, mas o pacote prevê suporte estendido e capacitação técnica que pode alcançar até 36 meses, garantindo continuidade operacional.
Como funcionam esses sistemas de rastreamento?
Ao contrário de uma ideia comum entre usuários leigos, o governo não terá acesso a chaves privadas, senhas ou fundos diretamente. As ferramentas contratadas trabalham exclusivamente com dados públicos das blockchains, aplicando:
- Análise de fluxos de transações
- Heurísticas para identificação de padrões
- Agrupamento de endereços que aparentam pertencer à mesma entidade
- Classificação de carteiras associadas a corretoras, serviços, golpes conhecidos ou atividades ilícitas já mapeadas
Esses sistemas são amplamente utilizados por autoridades em países como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e Japão, além de grandes exchanges globais, justamente por transformarem dados on-chain brutos em informações investigáveis.
Para que o Brasil quer isso agora?
O crescimento do uso de criptomoedas no país é um dos principais fatores. O Brasil figura consistentemente entre os maiores mercados de criptoativos do mundo, tanto em número de usuários quanto em volume movimentado.
Com isso, crimes financeiros migraram parcialmente para o ambiente digital, incluindo:
- Golpes com falsas promessas de investimento
- Pirâmides financeiras baseadas em tokens
- Uso de stablecoins para evasão de recursos
- Tentativas de ocultar valores via múltiplas carteiras
Na prática, o governo busca reduzir a assimetria tecnológica entre criminosos digitais e o aparato estatal, adotando ferramentas já consolidadas no exterior.
De um projeto bilionário a um contrato enxuto
Curiosamente, esse contrato representa apenas uma fração de um plano inicial muito mais ambicioso. Em meados de 2025, o governo estudava uma contratação que poderia ultrapassar R$ 40 milhões, com dezenas de licenças e uso prolongado por vários órgãos.
Após ajustes técnicos, revisão orçamentária e concorrência entre fornecedores, o modelo final ficou mais restrito — focado em uso estratégico, com menos licenças, mas maior eficiência operacional. O resultado foi um custo significativamente menor do que o inicialmente previsto.
Debate inevitável: segurança x privacidade
A adoção de ferramentas de monitoramento on-chain reacendeu debates importantes no meio jurídico e na comunidade cripto.
Especialistas apontam que essas plataformas utilizam probabilidades e inferências, não certezas absolutas. Uma carteira pode ser associada a outra por comportamento semelhante, mas isso não equivale automaticamente a prova criminal.
Por esse motivo, juristas defendem que os dados obtidos via blockchain analytics sejam usados como ponto de partida investigativo, e não como base única para bloqueios de bens, prisões ou acusações formais.
O Brasil segue uma tendência global
O movimento brasileiro não é isolado. Nos últimos anos, governos ao redor do mundo passaram a integrar análise on-chain às suas estratégias de fiscalização e investigação. O argumento central é simples:
👉 blockchains são públicas, e ignorar esses dados seria abrir mão de inteligência valiosa.
Ao mesmo tempo, cresce a pressão para que haja transparência no uso dessas ferramentas, critérios claros e respeito às garantias legais dos cidadãos.
E o investidor comum, deve se preocupar?
Para quem utiliza criptomoedas de forma legítima:
- ✔️ Carteiras pessoais continuam sob controle exclusivo do usuário
- ✔️ Não há “quebra” de criptografia
- ✔️ Não existe acesso direto a fundos
- ⚠️ Mas operações feitas em exchanges reguladas já são reportadas ao fisco
Ou seja, o impacto maior recai sobre atividades ilícitas ou não declaradas, enquanto o uso regular segue dentro da legalidade vigente.
🏁 Nota Final
O contrato firmado pelo governo brasileiro representa um marco simbólico e prático na relação entre Estado e criptomoedas. Ao adotar ferramentas de análise blockchain, o país sinaliza que os ativos digitais deixaram definitivamente de ser um território sem fiscalização — ao mesmo tempo em que desafia o poder público a usar essa tecnologia com responsabilidade, critério e respeito às liberdades individuais.
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