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CV usava fazenda de mineração de bitcoin com energia furtada para lavar dinheiro do tráfico no Rio

GE
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CV usava fazenda de mineração de bitcoin com energia furtada para lavar dinheiro do tráfico no Rio

Polícia Civil encontrou a estrutura clandestina dentro do Complexo do Lins durante operação nesta sexta-feira (22). O caso expõe uma tendência que já preocupa autoridades: o crime organizado brasileiro adotando mineração de criptomoedas como braço financeiro


Um cômodo vazio, num terreno abandonado, dentro de uma das comunidades mais violentas do Rio de Janeiro. Dentro: 30 Maquindas de mineração de bitcoin Asics rodando sem parar, ventoinhas de alta capacidade nas máquinas e exaustores na parede para impedir superaquecimento. Ninguém precisava estar presente — tudo era monitorado remotamente.

Essa foi a cena que policiais civis encontraram nesta sexta-feira (22) no Complexo do Lins, na Zona Norte do Rio, durante uma nova fase da Operação Contenção contra o Comando Vermelho (CV). A instalação operava às custas de um “gato de energia” — conexão elétrica clandestina — o que eliminava o principal custo da mineração de bitcoin. Custo zero. Receita contínua. Rastreabilidade baixa.

A polícia investiga se a estrutura era usada para lavar o dinheiro do tráfico.

Vídeo Youtuber G1

Como funciona — e por que faz sentido para o crime

Mineração de criptomoedas é, em si, completamente legal no Brasil. O processo consiste em usar poder computacional para validar transações em blockchain e, em troca, receber recompensas em bitcoin ou outras criptomoedas. Quanto mais máquinas, mais processamento, mais recompensa.

O que torna isso atraente para o crime organizado é a combinação de fatores:

Energia furtada elimina o maior custo. Numa operação legítima, eletricidade representa 60% a 80% do custo de mineração. Com ligação clandestina, esse gasto some. O CV transformou um custo proibitivo em lucro puro.

Bitcoin é pseudônimo, não anônimo — mas complica o rastreio. Transações ficam registradas na blockchain, mas carteiras não têm nome. Com técnicas básicas de mistura de fundos (mixers) ou conversão para outras moedas, o rastro se fragmenta o suficiente para dificultar investigações convencionais.

Mineração parece receita legítima. Diferente de depósitos em espécie, a entrada de bitcoin minerado num exchange com documentação criada para isso pode parecer, na superfície, renda de uma operação de mineração regular. É uma forma de branquear a origem do dinheiro antes de convertê-lo em reais.


O que a polícia encontrou no Lins

Polícia identifica esquema clandestino de mineração de criptomoedas em operação contra o CV no Lins. Foto Policia Civil

A estrutura tinha pelo menos 30 laptops, todos equipados com componentes para dissipar calor — detalhe que indica planejamento técnico, não improviso. A instalação operava de forma ininterrupta e podia ser gerenciada à distância. Nenhum operador precisava estar no local.

O equipamento foi apreendido e será periciado pela Polícia Civil do Rio (PCERJ). A perícia vai tentar determinar quanto foi minerado, para quais carteiras os valores foram enviados e se há rastros na blockchain que permitam mapear o fluxo financeiro da facção.

A descoberta aconteceu enquanto agentes cumpriam 6 mandados de prisão e 30 de busca e apreensão contra o núcleo operacional do CV no Complexo do Lins. Ao fim da operação, 10 pessoas tinham sido presas, incluindo dois suspeitos detidos em ação conjunta com a Polícia Civil do Piauí. Um homem apontado como gerente geral do roubo de veículos na região foi baleado durante a ação.

Além da fazenda de criptomoedas, os agentes desarticularam um ponto de endolação, recolheram carros e motos roubadas e apreenderam drogas e armas.


Não é caso isolado — é tendência

O que aconteceu no Lins não surgiu do nada.

Dados da Polícia Federal mostram que as apreensões de criptoativos ligados ao crime organizado no Brasil aumentaram 600% em 2025, chegando a R$ 71 milhões — cerca de US$ 14 milhões. O número parece alto até a gente lembrar que, no mesmo período, R$ 505 bilhões em criptomoedas circularam legalmente no país, segundo a Receita Federal. O crime usa uma fração do mercado, mas uma fração crescente.

PCC e CV já foram identificados usando criptomoedas para remessas e para ocultar a origem de recursos, segundo investigações em andamento. Em 2025, o CV foi associado a operações de lavagem na Argentina que movimentaram mais de US$ 500 milhões em ativos digitais, de acordo com o jornal argentino Clarín.

O relatório 2026 Crypto Crime Report, da Chainalysis, colocou o Brasil no radar global: endereços ilícitos receberam ao menos US$ 154 bilhões em criptomoedas ao longo de 2025 no mundo — alta de 162% em relação ao ano anterior. O bitcoin ainda responde por 75% do saldo mantido por entidades criminosas, justamente pela liquidez e pelo histórico de valorização.


O que muda para o mercado cripto legítimo

Do ponto de vista regulatório, o caso do Lins é mais um argumento para o aperto das regras. O Banco Central publicou, no fim de 2025, normas criando as SPSAVs (Sociedades Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais) — exchanges e prestadoras autorizadas obrigadas a seguir regras de KYC (conheça seu cliente) e AML (prevenção à lavagem de dinheiro). Em setembro do mesmo ano, um projeto de lei apresentado pelo deputado Domingos Neto propôs penas mais severas para lavagem de dinheiro via bitcoin.

O dilema é real: quanto mais se aperta a regulação para fechar as brechas que o crime usa, mais burocrático e caro fica operar legitimamente no setor. Mas deixar essas brechas abertas também tem um preço — e o que a polícia encontrou no Complexo do Lins é uma amostra concreta desse preço.

A perícia nos equipamentos apreendidos pode, se o rastro blockchain for identificado, ser o ponto de partida para rastrear carteiras, exchanges usadas e possíveis conexões com outros braços financeiros da facção.


Contexto da operação

Ação contra o Comando Vermelho no Lins revela estrutura usada para mineração ilegal de criptomoedas. Foto Divulgção

A Operação Contenção foi lançada em outubro de 2025 como uma das maiores ofensivas contra o CV no Rio de Janeiro, mobilizando 2.500 policiais e 32 veículos blindados. A fase desta sexta-feira é coordenada pela Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas) e pela 26ª DP (Todos os Santos), com apoio da Core e dos departamentos-gerais de Polícia da Capital, da Baixada, do Interior e de Polícia Especializada.


Fontes: Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro

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