O Digital Asset Summit (DAS) 2026, realizado pela Blockworks entre 24 e 26 de março no Javits Center, em Nova York, atraiu milhares de participantes de diversas instituições globais. Enquanto o debate do ano anterior girava em torno da integração das Criptomoedas no sistema financeiro, a discussão atual se voltou para a escalabilidade desse setor.
A abordagem agora não se limita mais às Stablecoins, mas abrange as inovações que emergem a partir delas, como vaults, crédito digital e infraestrutura institucional on-chain.
Stablecoins como infraestrutura
Os dados apresentados no DAS refletem uma realidade em crescimento. O valor de mercado das stablecoins ultrapassou US$ 320 bilhões em março de 2026. Em 2024, o volume de transações atingiu US$ 27,6 trilhões, superando as operações conjuntas de Visa e Mastercard. Durante o evento, a Tether reportou lucros superiores a US$ 13 bilhões, superando nomes como Mastercard e Citigroup.
A discussão no DAS não focou mais na adoção das stablecoins, mas nas construções que se apoiam nessa infraestrutura.
Inovações em pagamentos
Devin McGranahan, CEO da Western Union, apresentou a estratégia da empresa para a USDPT, sua stablecoin, que será lançada na solana em parceria com o Anchorage Digital Bank. McGranahan enfatizou a necessidade de modernizar o sistema bancário correspondente, afirmando: “Acreditamos que o SWIFT é ineficiente. Se você é um banco comunitário e precisa enviar dinheiro para a Europa, o processo leva cinco dias, é caro e não é rastreável. Podemos mudar isso.” A meta é transformar a USDPT em uma conta digital para clientes em mercados emergentes.
Denelle Dixon, CEO da Stellar Development Foundation, destacou a importância das redes públicas para a adoção institucional das blockchains. "Uma rede pública e aberta está sempre evoluindo, com pessoas contribuindo para aprimorá-la", afirmou. A Stellar é uma das redes que dá suporte à PYUSD, a stablecoin do PayPal, permitindo transações em mais de 170 países, com liquidação em cerca de cinco segundos.
Novas regulamentações da SEC
O DAS ocorreu logo após a SEC divulgar sua primeira taxonomia oficial de tokens. No DC Blockchain Summit, Paul Atkins, presidente da SEC, afirmou: “Não somos mais a Comissão de Valores Mobiliários e Tudo o Mais.” Durante o DAS, ele reiterou essa nova abordagem, que cria cinco categorias de criptoativos. Quatro delas — digital commodities, digital collectibles, digital tools e stablecoins — foram excluídas da classificação de securities, permitindo uma adoção institucional mais ampla.
Para as stablecoins, essa definição é crucial, uma vez que sob o GENIUS Act, elas não são tratadas como valores mobiliários. McGranahan, novamente, ressaltou: “Com a aprovação do GENIUS Act, vimos uma oportunidade de usar stablecoins para resolver problemas.”
Wall Street em ação
A presença de executivos de instituições financeiras no DAS foi estratégica e não meramente cerimonial. Robin Vince, CEO do BNY, o maior banco custodiante do mundo, comentou que a instituição se posiciona como uma ponte entre o sistema financeiro tradicional e as finanças digitais. O BNY, em parceria com o Goldman Sachs, já está desenvolvendo fundos de money market tokenizados.
Amy Oldenburg, do Morgan Stanley, desafiou a narrativa de urgência no setor, afirmando que a modernização da infraestrutura financeira é um processo em curso há anos. O banco planeja lançar ações e ETFs tokenizados até o segundo semestre de 2026.
Recentemente, a NYSE anunciou uma colaboração com a Securitize para criar uma plataforma de trading digital com liquidação on-chain e financiamento via stablecoin. A Interactive Brokers já permite depósitos contínuos em USDC, com planos para incluir RLUSD e PYUSD.
Michael Saylor e o crédito digital
Michael Saylor, da Strategy (ex-MicroStrategy), apresentou sua visão sobre um “novo capítulo para os mercados financeiros”, fundamentando-se em três camadas: capital digital (Bitcoin), crédito digital e dinheiro digital — instrumentos de crédito com rendimento estável baseados em Bitcoin. Saylor destacou que o Preço do Bitcoin agora é influenciado por fluxos de capital institucional e não mais por ciclos de halving.
A Strategy já lançou quatro instrumentos de crédito digital, com yields entre 8% e 11,5%. O instrumento STRC, com um valor nocional de aproximadamente US$ 5 bilhões, tornou-se a principal fonte de captação da empresa, superando pela primeira vez suas ações ordinárias.
Vaults: a nova era da gestão de ativos
A consolidação dos vaults como ferramenta de gestão de ativos na blockchain foi um dos temas mais debatidos no DAS. Matt Hougan, CIO da Bitwise, traçou um paralelo histórico entre diferentes instrumentos financeiros, afirmando que os vaults representam “a inovação mais significativa em gestão de ativos desde a criação dos ETFs”.
Os vaults, que são contratos inteligentes, aceitam stablecoins e alocam recursos em estratégias de rendimento, funcionando 24 horas por dia, com transparência em tempo real e sem intermediários. O segmento cresceu de cerca de US$ 150 milhões em 2024 para US$ 8,8 bilhões em ativos sob gestão em 2025.
Integração com inteligência artificial
O DAS também abordou a interseção entre inteligência artificial e blockchain. Vibhu Norby, da Solana Foundation, apresentou a ideia de que a plataforma está se posicionando como a infraestrutura para uma “internet agêntica”, onde sistemas de IA realizam transações de forma autônoma. Norby projetou que 99,99% das transações on-chain nos próximos dois anos serão executadas por agentes automatizados.
Transformação do sistema financeiro
O DAS 2026 evidenciou uma mudança de foco na discussão sobre ativos digitais, passando de uma dúvida sobre sua viabilidade para a questão de quem operará a nova infraestrutura. As stablecoins se firmaram como a base, enquanto os vaults se tornaram o principal instrumento. Instituições financeiras de grande porte, como Franklin Templeton e blackrock, já estão investindo nessa nova estrutura.
Para o mercado brasileiro, onde as stablecoins dominam as transações com criptoativos, o evento confirmou que essa transformação não é mais uma hipótese, mas uma realidade consolidada. A Rivool Finance marcou presença no Digital Asset Summit 2026, em Nova York.
